terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Sete clássicos de Preston Sturges (Parte II)



Contrastes Humanos - Sullivan's Travels (1941)
Este é considerado o melhor filme já feito por Sturges. No elenco Joel McCrea e Veronica Lake. O longa é uma sátira à indústria cinematográfica. McCrea interpreta um diretor de cinema que decide realizar um drama social, mas que descobre que a comédia é sua maior contribuição para a sociedade. 

Para provar que consegue fazer um drama relevante, Sullivan (McCrea) decide viver um tempo como um vagabundo. Com apenas dez centavos no bolso ele parte para os guetos da cidade. Um acidente ocorre e Sullivan é dado como morto em Hollywood, enquanto na realidade ele está preso, condenado a fazer trabalhos forçados. É quando ele descobre a vida dura daqueles que não nasceram privilegiados.


Preston Sturges teve a ideia para o filme a partir de histórias de John Garfield vivendo a vida de um vagabundo: montando trens de carga e indo de carona através do país por um curto período em 1930. O título original é uma referencia à obra Gulliver's Travels (As viagens de Gulliver). 

Contrastes Humanos foi o primeiro filme em que Veronica Lake trabalhou como protagonista. Ela estava  no sétimo mês da grávidez durante as filmagens.  As únicas pessoas na produção que sabiam da situação eram a figurinista Edith Head e a esposa de Preston Sturges. Head produzia costumes que disfarçassem a barriga e deixassem a atriz confortável. Lake tinha medo de que a produção descobrisse e ela fosse dispensada do longa. 

Quote:
"Há muito a ser dito para fazer as pessoas rirem. Você sabia que isso é tudo o que algumas pessoas têm? Não é muito, mas é melhor do que nada".


Mulher de Verdade - The Palm Beach Story (1942)
Com Claudette Colbert, Joel McCrea  e Mary Astor, essa comédia mais parece novela mexicana, por suas inesperadas reviravoltas. Interpretando o casal principal, vemos Coubertt e McCrea se casando, e nos é feito uma pergunta: e eles viveram felizes para sempre. Ou não viveram? Então somos levados para alguns anos mais tarde para ver o que ocorreu com o casal.

McCrea interpreta um inventor, Tom, que não consegue emplacar nenhuma de suas invenções. Já a mulher, Gerry (Colbertt), busca luxo e mimos. Os dois estão envolvidos em dívidas, até que Claudette Colbert decide deixar o marido, para conseguir dinheiro em outro lugar.

Lógico que Tom não deixa barato e vai atrás dela. Gerry conhece um rico empresário (Rudy Valee) e se aproxima dele e da irmã (Mary Astor), uma socialite colecionadora de maridos. Quando o personagem de McCrea encontra a mulher, ela o apresenta ao empresário e à socialite como seu irmão, um capitão. É quando tudo vai por água abaixo, já que ambos não conseguem fingir serem irmãos...

Este foi a maior bilheteria de Sturges. Também é considerado um dos melhores filmes dos dos atores principais. O longa relata e denuncia o estilo de vida ocioso e fútil dos ricos e o pouco valor que estes dão às próprias posses. 

Quotes:
"Homens não ficam espertos como ficam velhos. Eles apenas perdem os cabelos."
"Gorjeta é anti-americano."
"Cavalheirismo não está apenas morto, está decompondo."
"Você não sabe que os maiores homens do mundo dizem mentiras e deixam as coisas ser mal interpretadas se ela foi útil para eles? Você nunca ouviu falar de uma promessa de campanha?"

Papai por Acaso - The Miracle Of Morgan's Creek (1944)
O filme se inicia com uma ligação para o governador do estado, Dan McGinty - o mesmo do O Tirano da Cidade, que Bryan Donlevy interpreta nos dois filmes. Acontece que é um grande dia para Morgan's Creek, uma cidadezinha qualquer. O governador fica curioso para saber o porque do alvoroço. Então entramos na história que culminou na ligação. 

Trudy (Betty Huton) é uma garota que quer se divertir, dançar com os soldados e ir à festas. Mas seu pai viúvo pertence à outra época e não permite. Então convence-o à deixá-la ir ao cinema com um rapaz correto da cidade, que é apaixonado por ela, Norval (Eddie Bracken). No entanto, ela engana Norval e vai à festa de despedida dos soldados. Só volta no dia seguinte, com poucas memórias do que aconteceu. Só se lembra de ter participado de um casamento e  de ter dado o nome errado (só que não lembra que nome deu) e descobre que está grávida. Desesperada, com ajuda da irmã de quinze anos, bola um plano para legitimar o casamento e fazer dela uma boa garota. É claro que o plano não ocorre como planejado e sobra confusões para todos, especialmente para o pobre e ingênuo Norval.

Papai por Acaso, embora filmado entre 1941 e 1943, só foi lançado em 1944.  O motivo? O conteúdo do filme e a aproximação do tema com o Natal, além de advertências do Departamento de Guerra ( eles queriam ter a certeza de que os soldados iriam ser mostrados como rapazes corretos e não promíscuos, que era uma das críticas do diretor). Sturges começou a gravar com apenas dez páginas do roteiro aprovadas.

O filme é bastante diferente da época, tanto que os responsáveis do Código Hays receberam várias cartas de protesto devido ao tema. Para promover o longa, a Paramount exibiu 20 minutos na televisão, além de entrevistas e narrações do elenco. Foi pedido na premierè para os críticos não revelarem o final, já que estavam preocupados a censura. Foi a maior bilheteria do ano para o estúdio. Também faz parte da lista da AFI das melhores comédias já produzidas (100 years...100 laughs).

Quotes:
"Hitler manda recontar."
"Mulheres estão sempre tentando levar a culpa pelos homens. É o que vocês chamam instinto materno."
"Eu não lido com fantasmas. Ela não precisa de um advogado, ela precisa de um médium."

Herói de Mentira - Hail the Conquering Hero (1944)
Herói de Mentira é uma sátira aos heróis de guerra, política de cidade pequena e idolatração dos americanos em cima dos veteranos de guerra.  

Woodrow Truesmith (Eddie Bracken), um jovem do interior, tenta servir na Marinha mas é dispensado devido à saúde. Mas alguns fuzileiros o vestem com um uniforme e o cobrem de medalhas e começam a dizer para as pessoas que ele é um herói. Conforme a trama se desenrola, Truesmith vai ganhando força e simpatia na cidade devido aos seus feitos, chegando ao ponto de se tornar prefeito.

No Oscar, a produção recebeu uma indicação para Melhor Roteiro Original para Preston Sturges. Foi o oitavo e último filme do diretor para a Paramount, sobre a qual ele disse: "Eu acho que a Paramount estava feliz em me dispensar eventualmente, já que ninguém lá nunca entendeu uma palavra que eu disse".


Quote:

"Eles dizem que oportunidade só tem um cabelo na cabeça e você tem que pegá-lo enquanto ele está passando ou você pode não ter outra chance."


Com os filmes citados nesta e nessa lista, Preston Sturges se estabeleceu na indústria e na história do cinema como um dos grandes diretores de comédia da década de ouro. Seu texto ousado e original fez surgir grandes filmes. Trabalhou com grandes e pequenos atores e construiu para eles personagens marcantes.

Para mais, leia este fantástico artigo publicado no site da Vanity Fair, "The Seven Wonders of Preston Sturges", de Douglas McGrath.

domingo, 18 de novembro de 2012

Sete clássicos de Preston Sturges (Parte 1)

Em apenas quatro anos, Preston Sturges dirigiu e roteirizou sete clássicos sobre os costumes americanos. Grande sucesso em seu tempo, inovou num tipo de comédia diferenciada e inteligente.

Dirigindo apenas catorze longas ao longo da carreira, Preston Sturges conseguiu fazer da metade clássicos. E são esses clássicos que iremos discutir nesta coluna hoje. 

Nascido em 1898 em Chicago, Sturges veio de uma família rica. Foi bem educado e serviu o Exército na Primeira Guerra.  Antes de se destacar como diretor, foi roteirista. Começou escrevendo peças no final dos anos 20. Contratado pela Paramount já nos anos trinta, desenvolveu uma reputação de bom escritor. Sua escrita se definia como inteligente, sofisticada e despretensiosa, especialmente por saber rir de todos e de si mesmo. 

Nesse meio período, se familiarizou com as artes de fazer cinema. Seus roteiros foram dirigidos por nomes conhecidos como William Wyler e James Whale. Até que em 1940 teve a chance de dirigir seu primeiro roteiro: O Tirano da Cidade, com tema arriscado, que surpreendeu a todos ao se tornar um sucesso. A maioria dos filmes dirigidos e escrito por ele na época foram sucesso comercial e de crítica. Seu tipo de humor influenciou outros roteiristas e diretores a seguir-lhe o caminho. No entanto o sucesso teve tempo curto. Já em 1944 se sucedeu seu primeiro fracasso: O Grande Momento, justamente um drama histórico. Ao ser despedido em 1944, sua carreira posterior foi marcada por tentativas de renovação, incluindo uma parceira com Harold Lloyd, em Mad Wednesday, de 1947 e outra com Howard Hughes que terminou desastrosamente. Seu último filme foi o europeu de 1955, Les carnets du Major Thompson. Morreu em 1959 em Nova York, sendo reconhecido através dos tempos como um dos maiores diretores de uma época perdida, considerando que seu legado é pequeno, mas valioso. 


O Tirano da Cidade (título português) - The Great McGinty (1940)
Primeiro filme do diretor. Sturges vendeu o roteiro para a Paramount por apenas dez dólares, na condição que ele dirigisse o longa. Seu esforço foi recompensado: Oscar de Melhor Roteiro Original daquele ano.

O Tirano da Cidade é uma sátira política que conta a história de Dan McGinty (Bryan Donlevy), um barman. Através de flashbacks, vemos a ascensão e queda de sua carreira política. Quando era um vagabundo, McGinty foi convencido a votar sob um nome falso a fim de ganhar dois dólares e acabou impressionando um político local. McGinty tornou-se protegido e começou a subir na hierarquia política até chegar ao cargo de governador. No decorrer da trama, ele acabou se apaixonando e decidindo levar o cargo à sério, no entanto seu passado o alcança.

Preston Sturges teve a ideia para o filme quando um juiz de Chicago dividiu com ele histórias das eleições da cidade. 

Vários dos atores do longa se tornaram requisitados nos trabalhos posteriores do diretor. Apesar de ter concordado em deixá-lo dirigir o filme, a Paramount ofereceu poucos recursos, pouco tempo e atores desconhecidos para que Sturges trabalhasse. Em 1950 e 1954 o estúdio considerou realizar um remake com Bing Crosby e Bob Hope mas desistiu da ideia. Foi também o primeiro filme em que apenas um nome apareceu após o "Produced and Directed by".

Quote:
"Esta é a história de dois homens que se conheceram numa banana republic. Um deles nunca fez nada desonesto em sua vida, exceto por um louco minuto. O outro nunca fez nada honesto em sua vida exceto por um louco minuto. Ambos tiveram que sair do país."


Natal em Julho (título português)- Christmas in July (1940)
Baseado na peça de 1931 A Cup Of Coffee escrita por ele mesmo, Christmas in July, estreou sob a manchete "Se você não consegue dormir à noite, não é o café - é a cama!". 
  Um jovem pobre decide impressionar sua namorada ao participar de um concurso de uma rádio. O concurso dá um prêmio para quem criar o melhor slogan para a Maxford House Coffee. Então o jovem Jimmy MacDonald (Dick Powell) surge com a frase que faz publicidade ao filme. No entanto, no dia do anúncio do vencedor, os organizadores não chegam a uma decisão e decidem adiá-la.  

Os amigos de trabalho de Jimmy resolvem brincar e mandam um falso telegrama anunciando que ele é o vencedor do prêmio. O chefe fica tão impressionado que o promove para chefe de publicidade , com escritório próprio.  Um dos brincalhões tenta avisar do esquema para que não vá muito longe, mas acaba perdendo a cabeça.

Quando Jimmy vai receber o prêmio, o dono do Maxford Coffee ao pensar que já anunciaram o vencedor, entrega os 25,000 dólares. No entanto, quando tudo é descoberto, as coisas começam a dar errado para Jimmy, especialmente porque ele já gastou o dinheiro.

O set de filmagem era aberto para os visitantes, já que Sturges gostava de ser assistido enquanto dirigia.

Quote:
"Eu queria poder lhe dar a notícia que estava tão ansioso para ouvir. Mas como eu não posso, eu vou concluir com o que o prisioneiro disse quando o carrasco não conseguiu encontrar a corda: 'Sem laço é um bom laço'".


As Três Noites de Eva - The Lady Eve (1941)
Provavelmente o mais conhecido, ao lado de Contrastes Humanos, dos longas de Preston Sturges. As Três Noites de Eva possui nomes de peso no elenco, como Henry Fonda e Barbara Stanwyck.

Comédia romântica, o longa é retrato de guerra entre os sexos e ideal romântico. Charles Pike (Henry Fonda) é um especialista em cobras, que está passando um ano na Amazônia. Herdeiro de grande fortuna, ao retornar para os Estados Unidos no SS Southern Queen, se torna alvo das solteironas aproveitadoras que estão à bordo. Um trio de vigaristas se encontram lá também, do qual faz parte o Coronel Harrinton, seu parceiro Gerald e a filha Jean, interpretada por Stanwyck. Tentando se aproveitar que Charles se sente atraído por ela, Jean usa de artifícios para conquistá-lo até se encontrar atraída por ele também. No entanto, Charles descobre o esquema e a rejeita. 

Em Nova York, Jean, com a ajuda de outro vigarista prepara sua vingança. Ao se disfarçar de uma rica socialite, Lady Eve, Jean consegue enganar Charles, que fica encantado com a semelhança entre a moça que ele conhecera e se casa com ela. Na noite de núpcias, após o jogo revelado, ele foge. Mas ela ainda está apaixonada por ele. E resolve conquistá-lo novamente, agora se disfarçando novamente de Jean, pois Charles ainda não percebeu que são a mesma pessoa...

O filme teve seu script rejeitado pelo órgão de censura, devido à sugestão de sexo entre os personagens principais, mas depois foi liberado pelo que consideraram 'valores morais' que o longa aplica. As Três Noites de Eva fazem parte de duas listas da AFI, a das maiores comédias de todos e os tempos (100 years...100 laughs), e das maiores paixões (100 years...100 passions). A crítica considera esse o melhor trabalho de Fonda numa comédia.

Em 1956, o plot central foi aproveitado em outra comédia, The Birds and The Bees, no qual Preston Sturges recebe crédito de co-roteirista, mesmo não fazendo parte do projeto.

Quotes:
"Você vê, Hopsi, você não sabe muito sobre garotas. As melhores não são tão boas como você provavelmente pensa que são, e as más não são tão más. Nem quase más"
"O que eu estou tentando dizer é - eu não sou um poeta, eu sou um ofiologista - eu sempre te amei. Quero dizer, eu nunca amei ninguém, além de você"


NA SEGUNDA PARTE: CONTRASTES HUMANOS, MULHER DE VERDADE, PAPAI POR ACASO E HERÓI DE MENTIRA.







sábado, 10 de novembro de 2012

O caboclo brasileiro: Jeca Tatu

Jeca Tatu é o estereótipo do caboclo brasileiro do século XX. Criado por Monteiro Lobato e imortalizado na figura de Mazzaropi, o personagem ganhou ares de identificação nacional.

O criador Monteiro Lobato

Nascido de uma rica família na cidade de Taubaté (São Paulo) em 1882, José Renato Monteiro Lobato, mais tarde José Bento Monteiro Lobato, se caracterizou por ser o maior escritor infantil do Brasil. Com destaque para a série do "Sítio do Picapau Amarelo" e pelo personagem Jeca Tatu. Alfabetizado desde cedo, logo desenvolveu gosto pela leitura e pela escrita. 

Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco em 1904, levou-o a prestar o Concurso e assumir o cargo de Promotor em Areias, no Vale da Paraíba. Durante este meio tempo, Lobato escrevia para jornais e revistas, fazia caricaturas e desenhos. Em 1911, volta para Taubaté com sua esposa Maria Pureza da Natividade e seus filhos para assumir o controle da Fazenda Buquira, deixada por seu avô, o Visconde de Tremembé.

Dono de personalidade agressiva e forte, Lobato em sua carreira acadêmica e pessoal, atacou e enfureceu muitas pessoas. No seu discurso de graduação, fez que vários presentes se ofendessem e se retirassem da sala. Em 12 de novembro de 1912 o Estado de S. Paulo publica a carta "Velha Praga", que Lobato enviara a redação.

Em "Velha Praga" Monteiro Lobato critica o caboclo brasileiro, a ignorância que o caracteriza e a responsabilidade social que torna-o incapaz de progredir a agricultura na região. A carta causou polêmica nos círculos sociais. Logo depois publicava "Urupês", o primeiro trabalho em que aparece a figura do Jeca Tatu.


O tipo Jeca Tatu

Jeca Tatu é o retrato do homem do interior. Sem estudos e sem conhecimentos, é incapaz de se desenvolver economicamente. Lobato em primeiro instante, critica a ignorância do tipo, acreditando que a situação socioeconômica se deve exclusivamente ao próprio caboclo, e classifica-o como praga nacional. 

O Jeca de Lobato sofria com as doenças da época, como o amarelão, não possuía hábitos higiênicos, vivia descalço, plantava apenas o necessário para a sobrevivência. Alcoólatra e magérrimo, o tipo assustava todos que cruzavam com ele. Ao contrário da idealização que os caipiras brasileiros vinham sofrendo no período modernista da arte do país, Monteiro Lobato criou o personagem menos utópico e mais próximo da realidade. 

Mas, conforme o escritor passou a estudar mais o caipira, ele percebeu que o homem do interior era assim devido ao descaso do Estado para com suas necessidades, sua educação, à mercê do atraso econômico e da miséria. Como ele passou a dizer mais tarde: "Jeca não é assim, está assim.


Almanaque do Biotônico, ilustração de J. U. Campos


Tal constatação levou esse escritor nada convencional e crítico a buscar pela modernização do país e pelas lutas sociais. Como mostra, por exemplo, as várias prisões que por suas polêmicas declarações e também por ser um dos primeiros a defender a construção de poços petrolíferos no país e a nacionalização destes.

Jeca Tatu se torna instrumento de denúncia das condições que o Estado oferecia às pessoas do campo, especialmente as sanitárias. Tal que ganha ares políticos quando Rui Barbosa o utiliza como símbolo de sua campanha para presidente em 1918.

Na quarta edição de "Urupês", Monteiro Lobato se desculpa com o homem do campo.


- Um país não vale pelo tamanho, nem pela quantidade de habitantes. Vale pelo trabalho que realiza e pela qualidade da sua gente. Ter saúde é a grande qualidade de um povo. Tudo mais vem daí. Monteiro Lobato

O personificador Mazzaropi

Em 1912 nasce em São Paulo, Amacio Mazzaropi, que viria a imortalizar a figura do caipira brasileiro e o personagem de Monteiro Lobato. Além de imortalizar o personagem, Mazzaropi também passa maior parte de sua infância entre Taubaté e Tremembé, cidades em que viveu o escritor.

Com facilidade para a atuação e a escrita, Mazzaropi ingressa em várias companhias de teatro e de circo. Com o sucesso que adquire durante os shows, o ator logo é convidado por Abílio de Almeida e Franco Zampari a debutar no cinema. O primeiro filme é "Sai da Frente" de 1952, no qual já interpreta um os papéis que o marcaria: o empregado autônomo, o chofer, o entregador de móveis. Claro, seus filmes são todos recheados de humor e eventos cômicos. O filme tirou a famosa Companhia Vera Cruz da falência, pois o povo se identificava com os personagens que permeavam a trama.

Em 1959, Mazzaropi roda um dos seus filmes mais conhecidos, o "Jeca Tatu", baseado no personagem de Monteiro Lobato. Com roteiro de Milton Amaral, o longa é recheado de canções dos mais populares artistas da época. 

Jeca é um caipira simplório  que vive na zona rural de São Paulo, com a mulher e os filhos. Para pagar as dívidas, vende pedaços da terra, que os compradores repassam para o latifundiário Giovani que quer a todo custo impedir o namoro do filho com a filha de Jeca. Cercado por intrigas, Jeca acaba sendo preso, e apesar do conselho do delegado, quando é solto, jura Giovani de morte.

Um incêndio arquitetado pelos inimigos destrói o casebre de Jeca, que decide ir embora com a família para a ajudar na construção da nova capital, Brasília, mas é impedido. Em São Paulo, recebe uma proposta de um candidato a deputado, que se Jeca o ajudar a arrecadar dois mil votos ele o ajudaria. Jeca fica admirado e bestificado com os luxos da cidade grande e concede. Após mais alguns eventos, Jeca torna-se homem chefe da campanha e é feito coronel da cidade, com todos os luxos a qual tem direito.

Além do Jeca, Mazzaropi também interpretou outros caipiras brasileiros, no estilo ignorante, mas esperto, a título de Pedro Malazartes, por exemplo. 


- O que eu entendo por cultura popular? As raízes do povo brasileiro. Assim, negar o caipira brasileiro é negar a própria raiz. Acho que cultura é justamente não esquecer o passado, não esquecer nossas tradições ... O meu público está comigo há 40 anos e não me larga. Quer dizer que ele me entende. Mazzaropi, entrevista ao Folhetim da Folha de São Paulo, 02/07/78.

Mazzaropi, imortalizou não só o personagem, mas a si mesmo, pois ele se considerava o típico homem do campo brasileiro. A imagem permanece em todos os filmes e trabalhos do ator desde então. 

Leia mais sobre o Jeca: O “Jeca Tatu” de Monteiro Lobato: Identidade do Brasileiro e Visão do Brasil

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Méliès e irmãos Lumière: Visões acerca do cinema



É um fato conhecido que os irmãos Lumière levam o crédito de pais do cinema. E que Georges Méliès é o pai dos efeitos especiais. Contemporâneos,  todos tinham visões diferentes sobre a utilidade do cinematógrafo.

Louis e Auguste Lumière
Embora a invenção do cinema anteceda Louis (1864-1948) e Auguste (1862-1954) Lumière, eles são os responsáveis pela criação do cinematógrafo, instrumento que permite a captação de movimento e a projeção desse movimento. Thomas A. Edison, inventor da lâmpada, já havia realizado experimentos na área, porém sem sucesso. Embora a invenção de Edison, o quinetógrafo, conseguisse captar o movimento, não conseguia projetar numa tela, sendo possível apenas a uma pessoa assistir de cada vez. Contam que Edison buscava o cinema sonoro, que seria impossível sem antes a captação do movimento e com os avanços tecnológicos da época.

Embora seja dito que os irmãos Lumière defendiam o uso do cinematógrafo apenas para fins científicos e de registro, a primeira exibição, no Grand Café, na cidade de Paris em 28 de dezembro de 1895 já atestava ao menos a finalidade de entretenimento.

Como provam os primeiros filmes realizados por eles, embora entretenimento, os curtas pertencem ao que chamamos hoje de documentário, já que são o retrato fiel de uma época, a captação do fato no momento em ocorre, portanto a finalidade cientifica seja a mais creditada. Devido a esse aspecto real, os filmes eram sucesso de público. Embora muitos dos que assistiam às sessões, acreditassem se tratar de um mero ilusionismo, a invenção logo foi popularizada e propagada.

Alguns filmes dos Lumières:


O cinema poderia ter apenas duas finalidades: ciência ou arte. Se os irmãos Lumière se encarregaram da primeira, devemos agradecer a Georges Méliès (1861-1938) a segunda, que trouxe o veio artístico.

Presente na primeira exibição do cinematógrafo, Georges Méliès, daria outros fins à invenção. Ao se negarem a vender ao ilusionista um dos aparelhos, os irmãos, incentivariam que Méliès construísse a sua própria. 

George Méliès
Vindo do teatro, Méliès era um mágico, um entertainer, que viu na câmera a possibilidade de construir sonhos jamais imaginados. Com truques e efeitos de câmera, Méliès encantou e maravilhou pessoas de sua época. 

Responsável por introduzir no cinema vários efeitos especiais básicos, o mágico foi o responsável pela criação dos gêneros de fantasia, comédia e ficção científica na sétima arte. De fato, "Viagem À Lua", de 1902, é considerado o primeiro filme de ficção cientifica da história. Escrevendo, dirigindo e atuando, Georges Méliès produziu cerca de quinhentos filmes, a maior parte perdida nas Guerras. 

Alguns filmes de Méliès

Cozinheiro em Apuros (1904)
O Capetinha Travesso (1905)
A Super Cola (1907)
Os Bigodes Indomáveis (1904)
O Chinês Ilusionista (1904)
O Maravilhoso Leque Aminado (1904)
A Sereia (1905)
A Liteira Encantada (1907)

Muito embora, alguns críticos não considerem as produções da época como arte, e sim como entretenimento, foram essas que permitiram o surgimento do cinema como grande contador de história e com veia artística.

Fonte: BILHARINHO, Guido. Irmãos Lumière - A Invenção do Cinema - A Memória da Imagem e A Viagens Imaginárias de Georges Méliès - A Imagem da Memória, In. Clássicos do Cinema Mudo, Uberaba/2003 

domingo, 23 de setembro de 2012

Diário de Uma Garota Perdida (1929)


A parceria entre o diretor alemão GW Pabst e a estrela do cinema mudo Louise Brooks rendeu dois ótimos filmes. O primeiro foi "A Caixa de Pandora", de 1929, que imortalizou Brooks no papel de Lulu. O segundo foi "O Diário de Uma Garota Perdida", também de 1929. Ambos os filmes fazem parte da "Trilogia Erótica" de GW Pabst, sendo completada por "Abwege", de 1928. 

O filme (Pode conter spoilers) Thymian é uma jovem mimada que vive com seu pai Robert Henning, que é um farmacêutico. Um dia a empregada Elisabeth vai-se embora e comete suicídio. O motivo? O pai de Thymian a tinha engravidado. Outra empregada é contratada, Meta, que também inicia um romance com Henning. Quando a jovem descobre sobre o caso e o suicídio de Elisabeth, fica desolada. Ao procurar consolo nas mãos de Meinert que cuida da farmácia de seu pai, acaba sendo estuprada. Thymian dá a luz uma criança, Erika Henning, que sua família entrega para adoção. Como a moça se recusa a revelar o nome do pai da criança, por medo de se ver obrigada a contrair matrimônio, a família decide mandá-la para um reformatório.

Enquanto Thymian se encontra no reformatório, Meta se torna senhora da casa e transforma o quarto de Thymian em berçário. O pai da garota e todos ao seu redor passam a ser controlados por Meta. Paralelamente também é narrada a história do Conde Osdorff, um jovem playboy, que após não conseguir se adequar a nenhuma função ditada por seu tio, lhe é oferecida a chance de descobrir por si mesmo o que fazer. Ele acaba por se tornar um aliado para Thymian. No reformatório, Thymian, faz amizade com uma moça chamada Erika. 

Thymian no reformatório
As garotas formam uma aliança. Na cena em que a inspetora descobre o diário de Thymian e tentá tirá-lo dela, todas as meninas trabalham em conjunto para que a outra não consiga por as mãos nele. É nesta mesma cena que as garotas subjugam a mulher e Thymian e a amiga Erika escapam do reformatório.

Enquanto fugitivas, as duas amigas, começam a trabalhar em um prostíbulo. Ironicamente, é neste período de sua vida que a garota conhece companheirismo e paz. 


Com a amiga Erika
Três anos depois, quando o pai de Thymian morre, na esperança de receber uma fortuna, a moça decide ir em busca de um novo futuro e para isso casa-se com o Conde Osdorff. Quando descobre que Meinert, que comprou sua parte na farmácia de seu pai, está para por Meta e  a filha na rua, Thyamin vai ao socorro delas para que essas não enfrentem o mesmo destino que foi imposto à ela e dá o dinheiro recebido na venda para elas. O Conde que esperava receber um pouco dos benefícios acaba por atirar-se à morte.

Thymian acaba por ter em seu destino uma grande reviravolta, ao ser aceita pelo tio de seu marido, e introduzida na sociedade como Condessa Osdorff. 



Observações e curiosidades O filme é uma crítica a sociedade burguesa alemã e suas contradições e hipocrisias, fato que se pode observar em diversos momentos do longa. Como por exemplo, o desprezo a Thymian, enquanto que seu pai engravida e abusa das empregadas. Outro exemplo também é Meta sendo inserida na sociedade enquanto que se casa com Robert Henning por ter engravidado deste, enquanto que a menina é mandada para o reformatório. 


Os responsáveis pelo reformatório parecem divertirem-se em punir as garotas, e às vezes procurar motivos para machucá-las. Talvez, isto seja uma crítica ao Sistema, que invés de corrigir, pune e exclui aqueles que deveriam ser "reformados". Ao passo que, quando no prostíbulo, Thymian é protegida pelos donos do lugar e vive como numa irmandade.

O livro da qual a história do filme se baseou foi um dos maiores best-sellers alemães do início do século XX. Escrito por Margareth Böhme, que acabou sendo julgada como prostituta,o livro foi censurado e gerou polêmica por toda a Europa. Em 1907, o escritor inglês Hall Caine descreveu o livro como "a história comovente de uma menina de grande coração que manteve sua alma viva no meio de toda a lama que envolvia seu pobre corpo". Durante a Alemanha Nazista, devido ao seu conteúdo revelador, o  livro foi tirado de catálogo, só sendo publicado novamente em 1988. [Fonte: louisebrookssociety.blogspot.com]

É a segunda adaptação do livro, sendo a primeira de 1918, que hoje é considerada perdida. E as duas versões do filme foram censuradas, especialmente nas cenas chaves, como o estupro, por exemplo. 

Elenco Thymian ... Louise Brooks

Conde Osdorff ... André Roanne

Robert Henning ... Josef Rovenský

Meinert ... Fritz Rasp

Meta ... Franziska Kinz

Erika ... Edith Meinhard
Assista no Youtube Diário de uma garota perdida

sábado, 1 de setembro de 2012

The Entertainer Scott Joplin

O ragtime, antecessor do jazz, dominou as paradas musicais no começo do século XX. O responsável pela popularização do gênero e que veio a mais tarde ficar conhecido como o 'rei do ragtime' foi Scott Joplin. Você provavelmente já ouviu alguma composição do músico. The Entertainer, sua melodia mais conhecida foi adaptada por Marvin Hamlisch para a trilha sonora de um vencedor do Oscar: Golpe de Mestre (1973).


Biografia

Não se sabe exatamente onde e quando Scott Joplin nasceu, mas segundo o The Scott Joplin International Ragtime Foundation acredita-se que tenha ocorrido no Texas, no fim da segunda metade de 1867. Seu pai, ex-escravo, mudou com a família quando o músico ainda era criança para a cidade de Texarkana, exatamente entre a fronteira do Texas e Arkansas. 

Após seu primeiro contato com o piano, Joplin passou a ter aulas com Julius Weiss, um professor local, que ajudou no aprendizado das formas musicais europeias. 

Em 1880, quando o pai abandonou a família, a mãe, Florence, viu se obrigada a sustentar os filhos e contou com a ajuda de Scott Joplin, trabalhando em ferrovias. Mas viu que não era para ele e saiu de casa para ser músico viajante, passando em turnê por todo o sul do país. Em 1894, participou da Feira Mundial em Chicago e depois passou um tempo em St. Louis, ajudando a tornar o ragtime o ritmo mais popular da época. Quando não em turnê, Joplin ficava em Sedalia, Missouri e ensinava piano a vários que depois vieram a se tornar mestres em ragtime: Brun Campbell, Scott Hayden e Arthur Marshall. 
via desequilibrios.com.br

Em 1895, viajou para Siracusa com seu Quartette Medley TexasEm 1899, Scott lança sua primeira obra Maple Leaf Rag, com o qual adquiriu poder monetário suficiente para dedicar-se inteiramente à música. Nos anos seguintes compôs uma imensidade de melodias de todos os tipos, desde óperas ragtimes, polcas e a valsas. 
 
Joplin veio a se casar duas vezes: primeiro com Belle Joplin do qual se divorciou em 1904 para casar-se com Freddie Alexander, que tragicamente faleceu dez semanas após o casamento.

Portador de sífilis e com episódios de demência, Scott Joplin veio a falecer em 1917, sendo enterrado como indigente. 

Apesar de ser bastante popular em sua época, Scott Joplin não era reconhecido como um compositor sério. A grande admissão no círculo dos grandes compositores só ocorreu em 1972, com o relançamento de sua obra e a aclamação dos críticos. 


The Entertainer




O ragtime como ritmo musical obedece a seguinte composição:

  • s.m. (pal. ing.) Estilo musical muito sincopado, em voga por volta do fim do séc. XIX (mas ainda praticado), originário do folclore negro-americano e de música de dança dos brancos. / Estilo pianístico e orquestral dele advindo. / Música com o ritmo do ragtime. (fonte: Verbetes.com)

Scott Joplin é muitas vezes é reconhecido como o responsável pela introdução do piano banjo, muito utilizado nas músicas e composições populares, na música da elite estadunidense. Ao misturar influências das culturas afro-americanas e as europeias, Joplin oferece um ritmo "acessível" à todas as camadas da sociedade. Composições simples, mas refinadas. 

As composições muitas vezes agitadas e dançantes vem da experiência em bares e cafés nos quais Scott Joplin trabalhava tocando em seus primeiros anos. 

A primeira obra de Scott Joplin lançada foi o Maple Leaf Rag em 1899, embora tenha sido realizada em 1895. Supõe-se que o nome da partitura tenha se originado do Clube Maple Leaf, no qual Joplin chegou a tocar. Maple Leaf Rag foi a primeira peça instrumental a vender mais de um milhão de partituras. Durante sua vida Scott Joplin não conseguiu repetir o sucesso da primeira composição, mesmo que posteriormente The Entertainer tenha se tornado sua obra mais conhecida. Os rendimentos da música permitiu que o compositor pudesse viver tranquilamente o resto da vida, ainda que modestamente. 


Maple Leaf Rag foi tão reconhecida nas três primeiras décadas do seculo XX que pode ser encontra na trilha sonora do O Inimigo Público (1930).

Capa da primeira edição
The Entertainer foi registrada em 1902, sendo considerada a melhor e mais conhecida das composições do músico, e também o ragtime mais famoso. Graças ao arranjo e modernização de Marvin Hamlish, em 1972 com o lançamento de O Golpe de Mestre, a composição atingiu novos patamares, tendo chegado  no top 3 da Billboard Hot 100. 
    
                 

Também da obra de Joplin podemos destacar a ópera Treemonisha, a primeira grande obra do gênero composta por um afro americano. Embora não seja um estilo predominante, Treemonisha geralmente é lembrada como "ópera do ragtime". A ópera não tinha sido performada em sua totalidade até 1972 com o "boom" do ragtime. Escrita em 1902, só haviam sidos apresentados trechos dela, já que não era interessante à elite. Devido a notas de orquestração da Tremonisha terem sido perdidas, em 1972 outros compositores recriaram as performances subsequentes, tendo se tonado sucesso de público e de crítica. No mesmo ano Scott Joplin foi agraciado, postumamente, com o Prêmio Pulitzer pela "contribuição à música americana".

Treemonisha é uma ópera romântica popular. Conta a história de uma negra, Treemonisha, que recebe aulas de leitura com uma mulher branca e que leva a comunidade negra contra a influencia daqueles que se aproveitam da ignorância e superstição deles. Então Treemonisha é raptada e prestes a ser jogadas em um ninho de vespas quando seu amigo Remus a resgata. A comunidade percebe o valor da educação e a escolhe como professora e líder. Peça bem feminista para a época.



Curiosidade: Acredita-se que o primeiro grande sucesso do renomado Irving Berlin Alexarder's Ragtime Band, de 1911 tenha sua melodia emprestada de Drag A Real Slow, que Scott Joplin tinha submetido a uma editora.  

*As datas e lugares citados não são totalmente precisos devido a contradições entre as fontes. 

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