quinta-feira, 22 de março de 2012

...e o vento levou...

Filme VS. Livro

Sra. Mitchell
   Todo cinéfilo de respeito já viu, ao menos uma vez, esse grande clássico de 1939. Mas, poucos leram o livro assinado por Margaret Mitchell. O livro é tão grande quanto o filme: se o filme tem mais de três horas de duração, o livro, em sua edição original, tinha mais de mil páginas.
   Quem ler o livro verá nas páginas iniciais uma carta da Sra. Mitchell endereçada a nossa tradutora, da qual não me lembro o nome, elogiando sua tradução, porque ela manteve o coloquialismo no jeito como que os negros falavam (escritos naquilo que chamamos de "erros de português").
   Semelhanças: o filme e o livro levaram os prêmios máximos do cinema e do jornalismo: o Oscar e o Pulitzer.

    Quando se adapta uma obra para o cinema é analisado aquilo que é necessário para o entendimento do filme, e com isso cortam-se várias partes do livro. Para o filme ter uma "curta duração", o roteirista Sidney Howard, enxutou bastante a história. Mas o que não apareceu no filme? Eu há alguns anos, tive o prazer, e a coragem, de ler esse grande clássico (antes de ver o filme) e então pude notar as diferenças entre os dois. Não me lembro de todos os detalhes, mas irei listar algumas aqui:
Vivien Leigh e Clark Gable em cena

-Scarlett tem três filhos
Sim, Scarlett é daquelas que tem filhos com pais diferentes. Com Charles, ela dá a luz ao pequeno Hamilton, em homenagem ao oficial que envia a carta com a notícia da morte do cônjunge. Com Frank, nasce Ella, que é descrita como "tão feia como o pai". De Rhett, vem a Bonnie, sendo esta a única presente no filme.

-Will: Futuro marido de Suellen e amigo de Scarlett
Scarlett conhece Will de suas andanças entre casa e madeireira. Ele sabe quem é Scarlett. Vira feitor de Tara e depois da moça roubar o noivo da irmã ele se casa com Suellen e tem vários filhos com ela.

-A história de Ellen O'Hara
A mãe de Scarlett tem mais destaque no livro. Depois de descrever a personalidade de Ellen, a autora nos dá um vislumbre do porque ela estar casada com George O'Hara. Ellen, quando moça, havia se apaixonado por um primo, Philip, cujo partido não era bem visto. Assediada por George,  casou-se com ele, para escapar do domínio familiar. Mammy, que cuidou desta quando nasceu, é a única que sabe.

-Scarlett tem vários irmãos natimortos
Sim, o sonho de George era tem um herdeiro masculino. No entanto, todos nasceram mortos. Todos tinham o nome de George O'Hara Junior.

-A descrição de Rhett Butler não é exatamente compatível com a de Clark Gable
Sei que isso é detalhe mínimo, mas no livro, Rhett Butler é quase caricato e é descrito como um homem de pés pequenos que se tormam desproporcioanis ao corpo.

    Existem várias outras omissões que não consigo me lembrar agora. Mas, tanto o filme quanto o livro são obras excelentes, e, acredito, se pusessem todos os elementos do livro no filme, a obra não funcionaria. 
      Enfim, é sempre divertido ver o que foi adaptado e o que foi omitido.

     

terça-feira, 20 de março de 2012

A Influência do Cinema junto à Moda



Ao analisarmos historicamente a sociedade a partir da invenção do cinema no final do século XIX, podemos notar que grande foi sua influencia especialmente junto aos jovens.
Na década de 1920, Hollywood começa a se desenvolver e a se tornar o maior centro cinematográfico do mundo, produzindo nessa década grandes sucessos como os filmes de Charlie Chaplin, e lançando grandes produtores como Daryl Zanuck e Samuel Goldwin. Mas apesar de nessa época, Hollywood fazer grandes lançamentos, podemos notar o auge de sua influencia nos denominados Anos Dourados de Hollywood, quando se é lançado estrelas aos montes.
A Era de Ouro de Hollywood está marcada pelos anos de 1930 até a popularização da televisão entre 1950 e 1960.
Talvez, os primeiros astros do cinema sejam Charlie Chaplin e Buster Keaton, ambos do cinema mudo. A figura de Chaplin é reconhecida até hoje, pois se caracterizou com as calças largas, a bengala e a cartola. Já Buster Keaton é conhecido por ser o comediante que nunca ri. Ambos produziram filmes clássicos como O Grande Ditador (1940) e A General (1927).
Com o advento do cinema falado, em 1920, começaram a serem produzidos os musicais, gênero hoje em decadência, mas que teve seu auge durante a Era Dourada. O som lançou estrelas reverenciadas como Joan Crawford, Louise Brooks e Gloria Swason, donas do estilo melindrosa - cabelos curtos e arredondados, olhos fortemente marcados e baton escuro. Vale lembrar que essa é a década de Chanel e Patou, grandes nomes do universo da moda.

                 Gloria Swanson      Louise Brooks         Joan Crawford

Surgem as revistas de fãs. Os astros do cinema são mais conhecidos que o estilista que as veste.
Em 1929, ocorre a primeira premiação da Academia, popularizado com o nome de Oscar. Essa premiação tem influencia até hoje, pois além dos astros abrilhantados, há também o clássico “tapete vermelho” onde se observa a elegância e o traje dessas estrelas. O primeiro filme a ganhar o premio de melhor do ano foi o mudo Asas (1929).
Surgem as divas: seres intocáveis, idolatrados por seus milhares de fãs. A maioria delas tem seus corpos alterados, para alcançar o ideal de perfeição. Greta Garbo, Jean Harlow, Marlene Dietrich e Katharine Hepburn foram algumas delas. Greta, teve seus dentes consertados antes de alcançar o estrelato. Ignorava baton e se maquiava sozinha, possuía uma aura de elegância e mistério únicos. Dona de uma voz rouca e sensual, logo passou a levar milhares de mulheres à loucura, todas querendo copiá-la.
Pouco depois, a diva que iria causar furor em Hollywood, seria Marlene Dietrich. Vinda da Bélgica, Marlene passou por várias transformações antes de debutar nas artes. Afinou as bochechas, retirou os sisos e emagreceu. Ela foi a primeira mulher a usar calças compridas publicamente. Em um mundo de vestidos bufantes, Marlene brilhou com seus terninhos que davam a ela uma aparência masculinizada.
O figurino era parte essencial para o sucesso de um filme. O guarda roupa das atrizes eram super valorizados. Estilistas investiam nesse meio para propaganda.
Hollywood passou a contratar estilistas próprios.
                                                                                                                                                            

Greta Garbo                        Marlene Dietrich



Edith Head
Considerada a maior figurinista de Hollywood, tendo ganhado oito Oscars de melhor figurino, Edith Head ficou conhecida por vestir as mais diversas atrizes. De Grace Kelly, Doris Day à Audrey Hepburn. Seu maior talento estava em evidenciar no corpo das atrizes aquilo que as realçava e esconder os defeitos. Dentre os filmes que vestiu estão os clássicos Janela Indiscreta (1954), Sabrina (1954), A Princesa e o Plebeu (1953) e vários outros.

Com seus oito Oscars, Edith Head é mulher que mais ganhou o prêmio

As roupas de esporte e lazer também forma lançadas pelo cinema. Os sarongues usados por Dorothy Lamour em 1936, no filme A Princesa das Selvas, virou moda pelos anos seguintes.
No entanto, apesar do glamour apresentado pela sétima arte, as mulheres de classe média e baixa, não tinham condições de aderir ao estilo lançado pelas telas. Por isso, a maquiagem e o penteado eram os mais imitados.
E o mundo masculino? Aqui, artistas como Cary Grant e Gary Cooper lançavam ao mundo o estilo sedutor, informal e britânico.
Em 1940 e 1950, dois estilos distintos marcaram: o das loiras platinadas e curvilíneas e o das ingênuas e chiques.
O estilo loira platinada e curvilínea tem como maior ícone a atriz Marilyn Monroe. Mas não foi ela a primeira a usá-lo. Foi Jean Harlow a pioneira. Cabelo quase branco, boca bem delineada e cheia de curvas, definiu o estilo de toda uma safra de artistas. São as mulheres fatais. Entre as loiras platinadas se encaixam Marilyn Monroe e Brigitte Bardot, e entre as curvilíneas, Ava Gardner e Elizabeth Taylor.



Jean Harlow

            Grace Kelly, Doris Day, elegantes e “ingênuas”, lançam moda. Saias amplas, pérolas e cintura marcada fazem sua vez. Rita Hayworth lança a moda dos cabelos compridos e cacheados com Gilda (1946), imortalizando um dos vestidos mais clássicos do cinema.
            Em 1950, é lançado o filme O Selvagem (1954), com Marlon Brando como protagonista. Esse filme gera uma febre na Inglaterra por roupas de couro, jeans, motocicletas e rebeldia. No entanto, foi James Dean, com seu Juventude Transviada (1955) que incorporou e imortalizou esse estilo.

James Dean em Juventude Transviada (1955) e Marlon Brando em O Selvagem (1954)



Hepburn & Givenchy — Um capítulo à parte

 Findo os anos 1950, surgiu uma das maiores parcerias do cinema-moda. Audrey Hepburn e Hubert de Givenchy.
Audrey, nascida na Bélgica, filha de nobres pobres, sofreu muito durante as Guerras Mundiais, tendo de sobreviver às duras penas. Anos depois, foi oferecido à ela o papel principal na produção A Princesa e o Plebeu (1953), com Gregory Peck. Seu primeiro papel principal e seu Oscar. O filme contava com um figurino assinado por Edith Head. Audrey se destacou por sua ingenuidade e carisma.
 Pouco depois fez Sabrina (1954), junto a astros como Humphrey Bogart e William Holden, conseguindo outra indicação ao Oscar. Mas Audrey queria fugir dos padrões hollywoodianos, da moça cheia de curvas. Ela era alta, magra, sem curvas e com pés grandes. Ela não se encaixava nesse padrão e Edith Head era conhecida por esconder defeitos. Audrey revoltou-se contra esse modelo e foi a Paris para encontrar um estilista que estava apenas despontando: Givenchy.
Conta-se que quando disseram que Hepburn ia vê-lo, Givenchy pensou ser Katharine Hepburn, e não gostou quando soube que era Audrey. Mas ela insistiu e formou-se a grande parceria entre eles.
Apesar do figurino de Sabrina ser de Givenchy, foi Edith que levou os créditos, conseguindo um de seus Oscars.
O que é conhecido como “o look de Audrey” não procurava esconder nada, mostrava a mulher como ela era.
Talvez, o maior filme que tenha influenciado a moda seja Bonequinha de Luxo (1961), de Blake Edwards, baseado na obra de Truman Capote. Nele é retratada a história da prostituta de luxo Holly Gollitly (Audrey Hepburn – mais uma indicação ao Oscar). Na cena de abertura, a personagem desce de um taxi às seis horas na manhã em frente à loja Tiffany, na Quinta Avenida em Nova York e caminha diante de suas vitrines observando. O que chama a atenção na cena? Simplesmente o maravilhoso vestido trajado por Hepburn e assinado por Givenchy, o clássico tubinho preto, que imortalizou o filme, a atriz e o estilista como um dos maiores ícones da moda. São vários os trajes icônicos utilizados por Audrey em Bonequinha de Luxo: a calça capri com sapatilhas de balé, o vestido rosa, simples, que marca a cintura, a piteira, os óculos escuros gigantes, a tiara de diamantes e os saltos altos.
O filme também foi importante para a sociedade feminina, pois mostrava a mulher solteira que mora sozinha e está muito feliz com isso. Era o personagem nunca antes explorado pelo cinema. Mostrou às mulheres da época que não havia vergonha nenhuma em estar sozinha e ser livre. Ajudou a mudar a imagem que a sociedade tinha de Audrey Hepburn - a clássica princesinha ingênua.
Audrey, depois de um Oscar, cinco indicações, vários abortos, dois casamentos, torna-se uma das primeiras atrizes a fazer trabalhos sociais. Embaixadora da Unicef, dedicou os últimos anos de sua vida a ajudar as crianças carentes de aéreas de risco, como a Etiópia. Morreu de câncer de colo do útero em 1993. Considerada pelo Instituto Americano de Filme a terceira maior lenda do cinema e uma das mais bonitas mulheres do mundo por várias outras enquetes realizadas por diversas revistas, Audrey foi uma estrela que faz muita falta na moda e no cinema.
A parceria entre Givenchy e Audrey é uma das que mais inspira jovens atrizes e fashionistas em todo o mundo.

Vestidos de Sabrina e Bonequinha de Luxo




O cinema sempre lançou peças iconográficas. Como o vestido rosa usado por Marilyn Monroe em Os Homens Preferem as Loiras (1953), mais tarde copiado por Madonna em seu vídeo Material Girl; o vestido branco esvoaçante em O Pecado Mora ao Lado (1955); todos os vestidos usados por Vivien Leigh em ...E O Vento Levou (1939); o vestido usado por Elizabeth Taylor em Gata em Teto de Zinco Quente (1958); o vestido vermelho trajado por Audrey Hepburn em Cinderela em Paris (1957); o preto longo de Rita Hayworth em Gilda (1946) e os balangandãs de Carmen Miranda. É uma lista imensa.
A Era de Ouro de Hollywood acaba em 1960.
Depois dessa Era, a moda de Hollywood não era mais tão glamorosa quanto antes. A moda mais marcante lançada pelo cinema em 1970 foi o visual masculinizado de Diane Keaton em Noivo Neurótico, Noiva Neurótica (1977): paletó, colete, calças largas e gravata. Em 1980, o filme Wall Street - Poder e Cobiça (1987), inspirado nos executivos de Nova York, lança as camisas listradas de punho e gola em cor contrastante, abotoaduras e suspensórios. Vale lembrar, que a moda, depois da década de 1960, passa a ser ditada mais por outras áreas do entretenimento, como a música, por exemplo.
Em 1990, Matrix (1999) e suas continuações foram lançadas nos cinemas, inspirando os visuais futuristas, o preto e os óculos escuros. Os vestidos usados por Kate Winslet em Titanic (1997), também causou alguns impactos na moda, mas nada marcante.
Em 2007, Keira Knightley, em Desejo e Reparação (2007) usou um vestido verde que causou bastante especulação na moda, transformando-se em mais uma veste iconográfica. Em 2011, notou-se a grande utilização, como fantasia das festas de Halloween, o vestido de balé branco e também o preto, com suas respectivas maquiagens, utilizada por Natalie Portman no thriller psicológico Cisne Negro(2010).
Nos últimos anos, a moda lançada pelo cinema talvez seja a do “tapete vermelho”, onde as celebridades buscam por criatividade e inovação, sendo que as vestes, como dito anteriormente, causam tanto furor quanto a premiação.

Bibliografia:
NERO, Cyro del. Com ou Sem a Folha da Parreira: a curiosa história da moda. São Paulo: Editora Anhembi Morumbi, 2007.

LIPOVETSKY, Gilles. O Império do Efêmero: a moda e seu destino nas sociedades modernas. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

BARNARD, Malcolm. Moda e Comunicação. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.

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