domingo, 18 de novembro de 2012

Sete clássicos de Preston Sturges (Parte 1)

Em apenas quatro anos, Preston Sturges dirigiu e roteirizou sete clássicos sobre os costumes americanos. Grande sucesso em seu tempo, inovou num tipo de comédia diferenciada e inteligente.

Dirigindo apenas catorze longas ao longo da carreira, Preston Sturges conseguiu fazer da metade clássicos. E são esses clássicos que iremos discutir nesta coluna hoje. 

Nascido em 1898 em Chicago, Sturges veio de uma família rica. Foi bem educado e serviu o Exército na Primeira Guerra.  Antes de se destacar como diretor, foi roteirista. Começou escrevendo peças no final dos anos 20. Contratado pela Paramount já nos anos trinta, desenvolveu uma reputação de bom escritor. Sua escrita se definia como inteligente, sofisticada e despretensiosa, especialmente por saber rir de todos e de si mesmo. 

Nesse meio período, se familiarizou com as artes de fazer cinema. Seus roteiros foram dirigidos por nomes conhecidos como William Wyler e James Whale. Até que em 1940 teve a chance de dirigir seu primeiro roteiro: O Tirano da Cidade, com tema arriscado, que surpreendeu a todos ao se tornar um sucesso. A maioria dos filmes dirigidos e escrito por ele na época foram sucesso comercial e de crítica. Seu tipo de humor influenciou outros roteiristas e diretores a seguir-lhe o caminho. No entanto o sucesso teve tempo curto. Já em 1944 se sucedeu seu primeiro fracasso: O Grande Momento, justamente um drama histórico. Ao ser despedido em 1944, sua carreira posterior foi marcada por tentativas de renovação, incluindo uma parceira com Harold Lloyd, em Mad Wednesday, de 1947 e outra com Howard Hughes que terminou desastrosamente. Seu último filme foi o europeu de 1955, Les carnets du Major Thompson. Morreu em 1959 em Nova York, sendo reconhecido através dos tempos como um dos maiores diretores de uma época perdida, considerando que seu legado é pequeno, mas valioso. 


O Tirano da Cidade (título português) - The Great McGinty (1940)
Primeiro filme do diretor. Sturges vendeu o roteiro para a Paramount por apenas dez dólares, na condição que ele dirigisse o longa. Seu esforço foi recompensado: Oscar de Melhor Roteiro Original daquele ano.

O Tirano da Cidade é uma sátira política que conta a história de Dan McGinty (Bryan Donlevy), um barman. Através de flashbacks, vemos a ascensão e queda de sua carreira política. Quando era um vagabundo, McGinty foi convencido a votar sob um nome falso a fim de ganhar dois dólares e acabou impressionando um político local. McGinty tornou-se protegido e começou a subir na hierarquia política até chegar ao cargo de governador. No decorrer da trama, ele acabou se apaixonando e decidindo levar o cargo à sério, no entanto seu passado o alcança.

Preston Sturges teve a ideia para o filme quando um juiz de Chicago dividiu com ele histórias das eleições da cidade. 

Vários dos atores do longa se tornaram requisitados nos trabalhos posteriores do diretor. Apesar de ter concordado em deixá-lo dirigir o filme, a Paramount ofereceu poucos recursos, pouco tempo e atores desconhecidos para que Sturges trabalhasse. Em 1950 e 1954 o estúdio considerou realizar um remake com Bing Crosby e Bob Hope mas desistiu da ideia. Foi também o primeiro filme em que apenas um nome apareceu após o "Produced and Directed by".

Quote:
"Esta é a história de dois homens que se conheceram numa banana republic. Um deles nunca fez nada desonesto em sua vida, exceto por um louco minuto. O outro nunca fez nada honesto em sua vida exceto por um louco minuto. Ambos tiveram que sair do país."


Natal em Julho (título português)- Christmas in July (1940)
Baseado na peça de 1931 A Cup Of Coffee escrita por ele mesmo, Christmas in July, estreou sob a manchete "Se você não consegue dormir à noite, não é o café - é a cama!". 
  Um jovem pobre decide impressionar sua namorada ao participar de um concurso de uma rádio. O concurso dá um prêmio para quem criar o melhor slogan para a Maxford House Coffee. Então o jovem Jimmy MacDonald (Dick Powell) surge com a frase que faz publicidade ao filme. No entanto, no dia do anúncio do vencedor, os organizadores não chegam a uma decisão e decidem adiá-la.  

Os amigos de trabalho de Jimmy resolvem brincar e mandam um falso telegrama anunciando que ele é o vencedor do prêmio. O chefe fica tão impressionado que o promove para chefe de publicidade , com escritório próprio.  Um dos brincalhões tenta avisar do esquema para que não vá muito longe, mas acaba perdendo a cabeça.

Quando Jimmy vai receber o prêmio, o dono do Maxford Coffee ao pensar que já anunciaram o vencedor, entrega os 25,000 dólares. No entanto, quando tudo é descoberto, as coisas começam a dar errado para Jimmy, especialmente porque ele já gastou o dinheiro.

O set de filmagem era aberto para os visitantes, já que Sturges gostava de ser assistido enquanto dirigia.

Quote:
"Eu queria poder lhe dar a notícia que estava tão ansioso para ouvir. Mas como eu não posso, eu vou concluir com o que o prisioneiro disse quando o carrasco não conseguiu encontrar a corda: 'Sem laço é um bom laço'".


As Três Noites de Eva - The Lady Eve (1941)
Provavelmente o mais conhecido, ao lado de Contrastes Humanos, dos longas de Preston Sturges. As Três Noites de Eva possui nomes de peso no elenco, como Henry Fonda e Barbara Stanwyck.

Comédia romântica, o longa é retrato de guerra entre os sexos e ideal romântico. Charles Pike (Henry Fonda) é um especialista em cobras, que está passando um ano na Amazônia. Herdeiro de grande fortuna, ao retornar para os Estados Unidos no SS Southern Queen, se torna alvo das solteironas aproveitadoras que estão à bordo. Um trio de vigaristas se encontram lá também, do qual faz parte o Coronel Harrinton, seu parceiro Gerald e a filha Jean, interpretada por Stanwyck. Tentando se aproveitar que Charles se sente atraído por ela, Jean usa de artifícios para conquistá-lo até se encontrar atraída por ele também. No entanto, Charles descobre o esquema e a rejeita. 

Em Nova York, Jean, com a ajuda de outro vigarista prepara sua vingança. Ao se disfarçar de uma rica socialite, Lady Eve, Jean consegue enganar Charles, que fica encantado com a semelhança entre a moça que ele conhecera e se casa com ela. Na noite de núpcias, após o jogo revelado, ele foge. Mas ela ainda está apaixonada por ele. E resolve conquistá-lo novamente, agora se disfarçando novamente de Jean, pois Charles ainda não percebeu que são a mesma pessoa...

O filme teve seu script rejeitado pelo órgão de censura, devido à sugestão de sexo entre os personagens principais, mas depois foi liberado pelo que consideraram 'valores morais' que o longa aplica. As Três Noites de Eva fazem parte de duas listas da AFI, a das maiores comédias de todos e os tempos (100 years...100 laughs), e das maiores paixões (100 years...100 passions). A crítica considera esse o melhor trabalho de Fonda numa comédia.

Em 1956, o plot central foi aproveitado em outra comédia, The Birds and The Bees, no qual Preston Sturges recebe crédito de co-roteirista, mesmo não fazendo parte do projeto.

Quotes:
"Você vê, Hopsi, você não sabe muito sobre garotas. As melhores não são tão boas como você provavelmente pensa que são, e as más não são tão más. Nem quase más"
"O que eu estou tentando dizer é - eu não sou um poeta, eu sou um ofiologista - eu sempre te amei. Quero dizer, eu nunca amei ninguém, além de você"


NA SEGUNDA PARTE: CONTRASTES HUMANOS, MULHER DE VERDADE, PAPAI POR ACASO E HERÓI DE MENTIRA.







sábado, 10 de novembro de 2012

O caboclo brasileiro: Jeca Tatu

Jeca Tatu é o estereótipo do caboclo brasileiro do século XX. Criado por Monteiro Lobato e imortalizado na figura de Mazzaropi, o personagem ganhou ares de identificação nacional.

O criador Monteiro Lobato

Nascido de uma rica família na cidade de Taubaté (São Paulo) em 1882, José Renato Monteiro Lobato, mais tarde José Bento Monteiro Lobato, se caracterizou por ser o maior escritor infantil do Brasil. Com destaque para a série do "Sítio do Picapau Amarelo" e pelo personagem Jeca Tatu. Alfabetizado desde cedo, logo desenvolveu gosto pela leitura e pela escrita. 

Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco em 1904, levou-o a prestar o Concurso e assumir o cargo de Promotor em Areias, no Vale da Paraíba. Durante este meio tempo, Lobato escrevia para jornais e revistas, fazia caricaturas e desenhos. Em 1911, volta para Taubaté com sua esposa Maria Pureza da Natividade e seus filhos para assumir o controle da Fazenda Buquira, deixada por seu avô, o Visconde de Tremembé.

Dono de personalidade agressiva e forte, Lobato em sua carreira acadêmica e pessoal, atacou e enfureceu muitas pessoas. No seu discurso de graduação, fez que vários presentes se ofendessem e se retirassem da sala. Em 12 de novembro de 1912 o Estado de S. Paulo publica a carta "Velha Praga", que Lobato enviara a redação.

Em "Velha Praga" Monteiro Lobato critica o caboclo brasileiro, a ignorância que o caracteriza e a responsabilidade social que torna-o incapaz de progredir a agricultura na região. A carta causou polêmica nos círculos sociais. Logo depois publicava "Urupês", o primeiro trabalho em que aparece a figura do Jeca Tatu.


O tipo Jeca Tatu

Jeca Tatu é o retrato do homem do interior. Sem estudos e sem conhecimentos, é incapaz de se desenvolver economicamente. Lobato em primeiro instante, critica a ignorância do tipo, acreditando que a situação socioeconômica se deve exclusivamente ao próprio caboclo, e classifica-o como praga nacional. 

O Jeca de Lobato sofria com as doenças da época, como o amarelão, não possuía hábitos higiênicos, vivia descalço, plantava apenas o necessário para a sobrevivência. Alcoólatra e magérrimo, o tipo assustava todos que cruzavam com ele. Ao contrário da idealização que os caipiras brasileiros vinham sofrendo no período modernista da arte do país, Monteiro Lobato criou o personagem menos utópico e mais próximo da realidade. 

Mas, conforme o escritor passou a estudar mais o caipira, ele percebeu que o homem do interior era assim devido ao descaso do Estado para com suas necessidades, sua educação, à mercê do atraso econômico e da miséria. Como ele passou a dizer mais tarde: "Jeca não é assim, está assim.


Almanaque do Biotônico, ilustração de J. U. Campos


Tal constatação levou esse escritor nada convencional e crítico a buscar pela modernização do país e pelas lutas sociais. Como mostra, por exemplo, as várias prisões que por suas polêmicas declarações e também por ser um dos primeiros a defender a construção de poços petrolíferos no país e a nacionalização destes.

Jeca Tatu se torna instrumento de denúncia das condições que o Estado oferecia às pessoas do campo, especialmente as sanitárias. Tal que ganha ares políticos quando Rui Barbosa o utiliza como símbolo de sua campanha para presidente em 1918.

Na quarta edição de "Urupês", Monteiro Lobato se desculpa com o homem do campo.


- Um país não vale pelo tamanho, nem pela quantidade de habitantes. Vale pelo trabalho que realiza e pela qualidade da sua gente. Ter saúde é a grande qualidade de um povo. Tudo mais vem daí. Monteiro Lobato

O personificador Mazzaropi

Em 1912 nasce em São Paulo, Amacio Mazzaropi, que viria a imortalizar a figura do caipira brasileiro e o personagem de Monteiro Lobato. Além de imortalizar o personagem, Mazzaropi também passa maior parte de sua infância entre Taubaté e Tremembé, cidades em que viveu o escritor.

Com facilidade para a atuação e a escrita, Mazzaropi ingressa em várias companhias de teatro e de circo. Com o sucesso que adquire durante os shows, o ator logo é convidado por Abílio de Almeida e Franco Zampari a debutar no cinema. O primeiro filme é "Sai da Frente" de 1952, no qual já interpreta um os papéis que o marcaria: o empregado autônomo, o chofer, o entregador de móveis. Claro, seus filmes são todos recheados de humor e eventos cômicos. O filme tirou a famosa Companhia Vera Cruz da falência, pois o povo se identificava com os personagens que permeavam a trama.

Em 1959, Mazzaropi roda um dos seus filmes mais conhecidos, o "Jeca Tatu", baseado no personagem de Monteiro Lobato. Com roteiro de Milton Amaral, o longa é recheado de canções dos mais populares artistas da época. 

Jeca é um caipira simplório  que vive na zona rural de São Paulo, com a mulher e os filhos. Para pagar as dívidas, vende pedaços da terra, que os compradores repassam para o latifundiário Giovani que quer a todo custo impedir o namoro do filho com a filha de Jeca. Cercado por intrigas, Jeca acaba sendo preso, e apesar do conselho do delegado, quando é solto, jura Giovani de morte.

Um incêndio arquitetado pelos inimigos destrói o casebre de Jeca, que decide ir embora com a família para a ajudar na construção da nova capital, Brasília, mas é impedido. Em São Paulo, recebe uma proposta de um candidato a deputado, que se Jeca o ajudar a arrecadar dois mil votos ele o ajudaria. Jeca fica admirado e bestificado com os luxos da cidade grande e concede. Após mais alguns eventos, Jeca torna-se homem chefe da campanha e é feito coronel da cidade, com todos os luxos a qual tem direito.

Além do Jeca, Mazzaropi também interpretou outros caipiras brasileiros, no estilo ignorante, mas esperto, a título de Pedro Malazartes, por exemplo. 


- O que eu entendo por cultura popular? As raízes do povo brasileiro. Assim, negar o caipira brasileiro é negar a própria raiz. Acho que cultura é justamente não esquecer o passado, não esquecer nossas tradições ... O meu público está comigo há 40 anos e não me larga. Quer dizer que ele me entende. Mazzaropi, entrevista ao Folhetim da Folha de São Paulo, 02/07/78.

Mazzaropi, imortalizou não só o personagem, mas a si mesmo, pois ele se considerava o típico homem do campo brasileiro. A imagem permanece em todos os filmes e trabalhos do ator desde então. 

Leia mais sobre o Jeca: O “Jeca Tatu” de Monteiro Lobato: Identidade do Brasileiro e Visão do Brasil

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