sábado, 10 de novembro de 2012

O caboclo brasileiro: Jeca Tatu

Jeca Tatu é o estereótipo do caboclo brasileiro do século XX. Criado por Monteiro Lobato e imortalizado na figura de Mazzaropi, o personagem ganhou ares de identificação nacional.

O criador Monteiro Lobato

Nascido de uma rica família na cidade de Taubaté (São Paulo) em 1882, José Renato Monteiro Lobato, mais tarde José Bento Monteiro Lobato, se caracterizou por ser o maior escritor infantil do Brasil. Com destaque para a série do "Sítio do Picapau Amarelo" e pelo personagem Jeca Tatu. Alfabetizado desde cedo, logo desenvolveu gosto pela leitura e pela escrita. 

Formado em Direito pela Faculdade de Direito do Largo de São Francisco em 1904, levou-o a prestar o Concurso e assumir o cargo de Promotor em Areias, no Vale da Paraíba. Durante este meio tempo, Lobato escrevia para jornais e revistas, fazia caricaturas e desenhos. Em 1911, volta para Taubaté com sua esposa Maria Pureza da Natividade e seus filhos para assumir o controle da Fazenda Buquira, deixada por seu avô, o Visconde de Tremembé.

Dono de personalidade agressiva e forte, Lobato em sua carreira acadêmica e pessoal, atacou e enfureceu muitas pessoas. No seu discurso de graduação, fez que vários presentes se ofendessem e se retirassem da sala. Em 12 de novembro de 1912 o Estado de S. Paulo publica a carta "Velha Praga", que Lobato enviara a redação.

Em "Velha Praga" Monteiro Lobato critica o caboclo brasileiro, a ignorância que o caracteriza e a responsabilidade social que torna-o incapaz de progredir a agricultura na região. A carta causou polêmica nos círculos sociais. Logo depois publicava "Urupês", o primeiro trabalho em que aparece a figura do Jeca Tatu.


O tipo Jeca Tatu

Jeca Tatu é o retrato do homem do interior. Sem estudos e sem conhecimentos, é incapaz de se desenvolver economicamente. Lobato em primeiro instante, critica a ignorância do tipo, acreditando que a situação socioeconômica se deve exclusivamente ao próprio caboclo, e classifica-o como praga nacional. 

O Jeca de Lobato sofria com as doenças da época, como o amarelão, não possuía hábitos higiênicos, vivia descalço, plantava apenas o necessário para a sobrevivência. Alcoólatra e magérrimo, o tipo assustava todos que cruzavam com ele. Ao contrário da idealização que os caipiras brasileiros vinham sofrendo no período modernista da arte do país, Monteiro Lobato criou o personagem menos utópico e mais próximo da realidade. 

Mas, conforme o escritor passou a estudar mais o caipira, ele percebeu que o homem do interior era assim devido ao descaso do Estado para com suas necessidades, sua educação, à mercê do atraso econômico e da miséria. Como ele passou a dizer mais tarde: "Jeca não é assim, está assim.


Almanaque do Biotônico, ilustração de J. U. Campos


Tal constatação levou esse escritor nada convencional e crítico a buscar pela modernização do país e pelas lutas sociais. Como mostra, por exemplo, as várias prisões que por suas polêmicas declarações e também por ser um dos primeiros a defender a construção de poços petrolíferos no país e a nacionalização destes.

Jeca Tatu se torna instrumento de denúncia das condições que o Estado oferecia às pessoas do campo, especialmente as sanitárias. Tal que ganha ares políticos quando Rui Barbosa o utiliza como símbolo de sua campanha para presidente em 1918.

Na quarta edição de "Urupês", Monteiro Lobato se desculpa com o homem do campo.


- Um país não vale pelo tamanho, nem pela quantidade de habitantes. Vale pelo trabalho que realiza e pela qualidade da sua gente. Ter saúde é a grande qualidade de um povo. Tudo mais vem daí. Monteiro Lobato

O personificador Mazzaropi

Em 1912 nasce em São Paulo, Amacio Mazzaropi, que viria a imortalizar a figura do caipira brasileiro e o personagem de Monteiro Lobato. Além de imortalizar o personagem, Mazzaropi também passa maior parte de sua infância entre Taubaté e Tremembé, cidades em que viveu o escritor.

Com facilidade para a atuação e a escrita, Mazzaropi ingressa em várias companhias de teatro e de circo. Com o sucesso que adquire durante os shows, o ator logo é convidado por Abílio de Almeida e Franco Zampari a debutar no cinema. O primeiro filme é "Sai da Frente" de 1952, no qual já interpreta um os papéis que o marcaria: o empregado autônomo, o chofer, o entregador de móveis. Claro, seus filmes são todos recheados de humor e eventos cômicos. O filme tirou a famosa Companhia Vera Cruz da falência, pois o povo se identificava com os personagens que permeavam a trama.

Em 1959, Mazzaropi roda um dos seus filmes mais conhecidos, o "Jeca Tatu", baseado no personagem de Monteiro Lobato. Com roteiro de Milton Amaral, o longa é recheado de canções dos mais populares artistas da época. 

Jeca é um caipira simplório  que vive na zona rural de São Paulo, com a mulher e os filhos. Para pagar as dívidas, vende pedaços da terra, que os compradores repassam para o latifundiário Giovani que quer a todo custo impedir o namoro do filho com a filha de Jeca. Cercado por intrigas, Jeca acaba sendo preso, e apesar do conselho do delegado, quando é solto, jura Giovani de morte.

Um incêndio arquitetado pelos inimigos destrói o casebre de Jeca, que decide ir embora com a família para a ajudar na construção da nova capital, Brasília, mas é impedido. Em São Paulo, recebe uma proposta de um candidato a deputado, que se Jeca o ajudar a arrecadar dois mil votos ele o ajudaria. Jeca fica admirado e bestificado com os luxos da cidade grande e concede. Após mais alguns eventos, Jeca torna-se homem chefe da campanha e é feito coronel da cidade, com todos os luxos a qual tem direito.

Além do Jeca, Mazzaropi também interpretou outros caipiras brasileiros, no estilo ignorante, mas esperto, a título de Pedro Malazartes, por exemplo. 


- O que eu entendo por cultura popular? As raízes do povo brasileiro. Assim, negar o caipira brasileiro é negar a própria raiz. Acho que cultura é justamente não esquecer o passado, não esquecer nossas tradições ... O meu público está comigo há 40 anos e não me larga. Quer dizer que ele me entende. Mazzaropi, entrevista ao Folhetim da Folha de São Paulo, 02/07/78.

Mazzaropi, imortalizou não só o personagem, mas a si mesmo, pois ele se considerava o típico homem do campo brasileiro. A imagem permanece em todos os filmes e trabalhos do ator desde então. 

Leia mais sobre o Jeca: O “Jeca Tatu” de Monteiro Lobato: Identidade do Brasileiro e Visão do Brasil

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