quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Animação II: Animadores

Como já dito no meu outro post sobre o início da animação no cinema, este irá focar em alguns dos maiores desenhistas que a indústria já produziu. Alguns dos citados abaixo tiveram influência na animação, como criadores de desenhos significativos, em inovações em linguagens e traços, em novas tecnologias, ou que criaram figuras tão populares que são lembrados até hoje.



Nascido na capital austríaca em 1883, Max Fleischer imigrou ainda criança com a família para os Estados Unidos. Durante a adolescência estudou mecânica e, enquanto trabalhava para o The Brooklyn Daily Eagle, ele se tornou um desenhista. Foi durante este período que  conheceu o animador Joseph Bray, que mais tarde fundou o estúdio de animação Bray-Hurd. 

Determinado a encontrar um modo mais rápido e eficiente, além de econômico na produção de animação, junto com seus irmãos Joe e Dave, inventou o Rotoscope, um dispositivo que rastreava o movimento de ação ao vivo (live action). O primeiro trabalho produzido com a invenção foi o filme de 1915: "Experiment No. 1", que apresentou o palhaço Koko (para o qual Dave posou). 

Outra invenção memorável dos irmãos foi o Rotograph, que combinava live action com animação. Com suas  novas tecnologias, os irmãos, especialmente Max, vieram a criar alguns dos mais populares cartoons, tais como Betty Boop e Popeye.

Max Fleischer foi um dos primeiros a transformar HQ em desenho animado. Em 1941, junto com os irmãos, adquiriu da DC Comics os direitos de adaptação dos quadrinhos do Super HomemOs irmãos foram responsáveis, além de tudo, pela produção e lançamento dos primeiros filmes de animação sonoros:  "Come Take a Trip in My Airship", de 1924 e  "My Old Kentucky Home", de 1926.

Max foi o maior competidor direto de Walt Disney - embora nunca tivessem se conhecido. Max trabalhou vários anos na Bray-Hurd, sendo que em 1921, junto com os irmãos Dave e Lou, fundaram o estúdio Fleischer.

As criações de Max Fleischer são bastante diferentes das de Walt Disney, pois possuem geralmente tema mais adulto, mais psicológico e humor negro, como exemplo, o desenho mais famoso Betty Boop, além de colocar bastante jazz e ritmos mais multiculturais em suas trilhas sonoras. Embora o sucesso de Betty fosse grande, não se compararia ao seu inimigo direto: Mickey Mouse.

Os temas adultos e a competição acirrada levaram o Estúdio Fleischer a diminuir, principalmente com a imposição do Código Hays em 1934. Uma relação deteriorada com o irmão Dave Fleischer e mais imposições da Paramount sobre o estúdio também ajudaram. Mas, ainda assim, nos anos seguintes foram animadas "As Viagens de Gulliver", de 1939, longa produzido para concorrer com o sucesso "Branca de Neve e os Sete Anões" da Disney, e  "Rudolph, a rena do nariz vermelho", de 1948. Mais tarde, em 1954, Fleischer voltou para a Bray-Hurd, como gerente de produção.

Max Fleischer morreu aos 89 anos em 1972. É aclamado como um dos maiores inventores e cartunistas do cinema.





Paul Terry foi um dos mais prolíficos produtores da história: mais de 1300 filmes em 40 anos! Nascido na Califórnia em 1887, Terry em seus primeiros anos trabalhou para jornais como fotógrafo e cartunista, até o lançamento de "Gertie o Dinossauro" de Winsor McCoy, quando seu interesse pela área aumentou.

O primeiro filme que Paul Terry fez foi "Little Herman", de 1915 e naquele mesmo ano "Down on the Phoney Farm", o primeiro no qual aparece um dos personagens mais queridos do autor: o fazendeiro Al Falfa.

Em 1916, assim como Max Fleischer, Paul Terry entrou para o Bray-Hurd Studios dirigindo e produzindo onze filmes da série do Fazendeiro Al Falfa.

Após deixar o Estúdio Bray em 1917, Terry abriu o próprio, mas, ao estourar a Primeira Guerra Mundial, fechou para se juntar ao Exército. Durante este período foram produzidos mais nove filmes.

Em 1920, junto com Amadee Van Beuren, Paul Terry fundou o Fables Studios. Nos novos estúdios, Terry experimentou o som nos desenhos animados, assim como produziu mais novas séries de cinema, e novos desenhos do seu personagem mais popular. Em 1929, Terry e Van Beuren se desentenderam a respeito do som nos filmes e Paul Terry fundou em Nova York os estúdios Terrytown, no qual produziria alguns dos seus mais populares personagens e séries, tais como Mighty Mouse, Gandy Goose e Faísca e Fumaça

Apesar de rápido para implementar novas tecnologias que simplificassem o processo de animação, Paul Terry era mais resistente ao adaptar novos processos de produção, como o som sincronizado e a colorização, o que fazia seu estúdio não ter toda a qualidade que os estúdios Disney e Fleischer ofereciam.

Paul Terry morreu em 1971, anos após vender a Terrytown para a CBS, que além de produzir novas animações, durante anos reprisaria os desenhos na televisão. 




Walt Disney, sem dúvida, é o animador mais conhecido. Não existe quem nunca tenha ouvido falar de Mickey Mouse, Pato Donald ou dos filmes produzidos pela Walt Disney Company. Além, é claro, de ser o recordista em Oscar recebidos durante a carreira: 59 indicações e 22 vitórias!

Enfim, não há muito o que ser dito que todos já não saibam. Disney nasceu em 1901, nos Estados Unidos. Serviu na Primeira Guerra como soldado e depois na Cruz Vermelha. Estudou arte, até criar a pequena companhia cinematográfica Laugh-O-Gram, onde animava conto de fadas.

Na companhia criou dois personagens que lhe foram roubados posteriormente (ele não havia assinado os desenhos): o coelho Oswald e vários curtas sobre a Alice.

Seu próximo projeto foi Mickey Mouse, produzido para competir com o Gato Félix. O primeiro desenho sonoro foi em 1928,  Steamboat Willie, que é muitas vezes considerado pioneiro na tecnologia, embora existam outros produzidos antes.
A obra prima do estúdio, no entanto, ainda estava por vir: Branca de Neve e os Sete Anões (1937), o primeiro longa-metragem sonoro e totalmente a cores. Após o sucesso de Branca de Neve, foram produzidos outros que compõe a lista dos clássico da Disney, tais como Pinocchio, Fantasia e Bambi.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Walt Disney participou colaborando com a inteligência do país, chegando a ter seus filmes vetados na URSS. Após a guerra, quase falido, resolve animar o conto Cinderella, de 1950, que ajudou nas finanças do estúdio.

Embora mais conhecidos por seus desenhos e personagens, o estúdio Disney também produziu outros filmes com atores, quase sempre voltados para o público infantil.

O homem morreu em 1966, mas o legado de Walt Disney para a sétima arte e para o entretenimento é enorme: vários parques de diversão (Disneyworld, Disneyland...), múltiplos personagens, e o melhor, reconhecimento como um dos maiores fabricantes de sonhos do cinema. 






Embora sejam duas pessoas diferentes, seus nomes sempre estarão juntos, como um: Hanna Barbera, empresa fundada por William Hanna e Joseph Barbera.

Joseph Barbera, nasceu em 1911, descendente de italianos. Desde cedo demonstrou talento para o desenho, chegando a ir para uma escola especializada. Pobre, trabalhou em um banco enquanto treinava o traço e vendia seus cartoons para revistas e jornais. Após deixar o trabalho no banco, passou um tempo nos Estúdios Fleischer colorizando os filmes de celuloide  Durante a Depressão encontrou-se sem emprego e sem lugar para onde ir. Chegou a escrever para Walt Disney, mas este nunca compareceu ao encontro. Trabalhou algum tempo no estúdio de Amadee Van Beuren, e quando este fechou, trabalhou para o criador da Terrytown, Paul Terry.

William Hanna veio ao mundo numa família de escritores, em 1910. Bastante interessado em jornalismo e matemática, chegou a entrar na universidade para cursar Jornalismo e Engenharia. Mas com a Depressão largou a faculdade e encontrou sua vocação quando começou a trabalhar pintando celuloide para uma pequena companhia, que seria a criadora dos primeiros desenhos da Looney Tunes: Herman-Ising Studios. Mais tarde começou a contribuir com histórias, músicas e piadas para os desenhos.


Quando a MGM decidiu montar o próprio departamento de animação, um dos primeiros contratados foi Hanna, como autor e diretor. Buscando mais talentos, o chefe do departamento foi atrás dos desenhistas de Paul Terry, e contratou Barbera como animador, sendo que este logo se tornou roteirista. 

Infelizmente os talentos contratados pela MGM se desentendiam frequentemente. Muitos deles saíram ou foram despedidos. O departamento estava sendo um fracasso. Até que dois de seus empregados resolveram criar um certo gato que persegue um rato.


Mais voltado para a televisão, já que a Hanna Barbera surgiu pronta para o boom da TV, na década de 1950, trouxeram a luz desenhos como Tom & Jerry, Zé Colméia, os Flinstones, Manda Chuva, os Jetsons, Scooby Doo, e mais uma centenas de outros que embalaram e ainda encantam crianças de todas a s gerações.

De fato, o primeiro sucesso surgiu ainda antes do estúdio ser fundado, na época da MGM: no filme de 1940,  Puss Gets the Boot, no qual apareciam o gato Tom perseguindo seu arqui-inimigo  Jerry. O estúdio foi fundado quatro anos depois, na Califórnia.

Sucessos não pararam de surgir nas décadas seguintes, pois como já foi dito, a televisão passou a ser uma tecnologia presente mais no dia a dia da população norte americana e a dupla visionária se dedicou especialmente a esse novo veículo. 

Os desenhos da Hanna Barbera dominaram a programação infantil das emissoras. Infelizmente, um dia o império chegou ao fim, ao ser comprado pela Turner Enterprises, em 1993, que mais tarde incluiu os desenhos na programação da Cartoon Networks, embora hoje estejam a maioria fora de circulação. 

As criações de Joseph e William estão espalhadas pelo mundo, provavelmente continuam imbatíveis no referente a produções televisivas.

William Hanna morreu em 2001 e Joseph Barbera cinco anos depois, em 2006. Tom & Jerry receberam sete Oscars e a dupla criadora oito Emmys.


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Animação I: Início

A animação em seu princípio, ainda na época em que o cinema não falava, era utilizada para propagandas e muitas vezes exibidas antes dos longas-metragens nas salas de cinema. Embora o estudo e algumas tentativas já existissem, foi a partir de 1906 que as pesquisas na área se tornaram mais freqüentes. 



Propaganda animada produzida pela Ford Motor Company 
contra os bolcheviques, a quem chamam de "ratos da civilização"


Tal interesse ocorreu devido a produção daquele que é considerado o primeiro desenho animado de cinema, The Humorous Phases of Funny Faces, de James Stuart Blackton, em 06 de abril de 1906. Depois do sucesso deste, Blackton abriu um estúdio para estudar novas técnicas e produção de novas animações.



Mas, retrocedendo um pouco no tempo, pode-se perceber que a história da animação é tão, ou mais, antiga quanto a do cinema. Alguns anos antes da invenção de aparelhos que permitiam a projeção de imagens, já eram testados aparelhos para a projeção de desenhos animados. Tais aparelhos eram similares aos primitivos do cinema, no qual se visualizava uma sucessão de imagens em rápida velocidade, dando a ilusão de movimento. Um dos pioneiros - e o mais reverenciado - foi Émile Reynaud, inventor Pantomimes Lumineuses, cujos estudos anteciparam o do cinema em três anos (pelo mesmo motivo suas invenções perderam público e interesse - invés de ver o signo, no cinema as pessoas viam o objeto real se mover). No entanto, o tempo trouxe para Reynaud o reconhecimento, e hoje, ele é considerado o Pai da Animação. Para saber mais sobre esse inventor e suas invenções recomendo este texto do site Kinodimâmico: A influência de Émile Reynaud no cinema.



Pauvre Pierrot, de 1892, considerado o primeiro 
cartoon animado do mundo, de Émile Reynaud produzido antes da invenção do 
cinematográfo dos Lumierè, 

Voltando para 1906, no período da evolução da animação dentro do cinema. Durantes os anos seguintes curtas de vários tipos foram produzidos. No dia 17 de agosto de 1908, Émile Cohl, um francês, exibiu pela primeira vez a animação Fantasmagorie, primeiro desenho a contar uma história e que não exibia a mão do artista desenhando.


Émile Cohl


Émile Cohl é considerado o primeiro animador profissional do cinema, além de ser o primeiro a criar um personagem fixo (Fantoche).  Os curtas produzidos por Cohl, que foram mais de cem nos dez anos seguintes, eram baseados em pranchas que ele próprio desenhava e depois filmava por stop motion.

O primeiro longa-metragem de animação foi o argentino El Apóstol, de 1917, criado por Frederico Valle e Quirino Cristiano, embora existam controvérsias.

Outro pioneiro na animação foi o estadunidense Winsor McCay, que criou aquele que alguns historiadores consideram o primeiro longa-metragem do cinema – embora exista o longa anterior citado acima – The Sinking Of The Lusitania, de 1918.



The Sinking Of The Luzitania mostrava o naufrágio do navio Luzitania

McCay também realizou outros desenhos importantes como Little Nemo, How A Mosquito Operatesentre outros.

Muitos dos que se interessavam pela técnica eram cartunistas de revistas e jornais, entre eles o próprio McCay, que trabalhava para o New York Herald.

Embora a animação já estivesse de certa forma estabelecida como produção de sucesso, o processo para a feitura de novos desenhos ainda era demorado: era feito uma prancha para cada ação da cena a ser animada.

John Randolph Bray, ex-cartunista do Brooklyn Eagle após realizar alguns curtas para a Pathé (criou Colonel Heeza Liar In Africa, de 1913 - bastante popular na época), foi o responsável pela técnica que agilizaria o processo e seria utilizado até recentemente.

A técnica desenvolvida por Bray consistia em criar um cenário fixo, enquanto os personagens a serem animados eram desenhados em folhas transparentes, para na hora da filmagem trocar-se somente as folhas sobre o cenário. O processo foi aperfeiçoado por Earl Hurd, que, junto com Bray criaram em 1917 a Bray-Hurd Process Company, que produziu grandes profissionais no setor, dos quais discutiremos nos próximos posts.

A seguir:


Animação III: Desenhos populares


Little Nemo - colorizado à mão

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

O Último Comando (1928)

Este filme do diretor alemão Josef von Sternberg sobre a Rússia czarista rendeu a Emil Jannings o primeiro Oscar de atuação da história da Academia, em 1929. Com roteiro de John F. Goodrich e Herman J. Mankiewicz, ainda contava no elenco com um jovem William Powell.

"O Último Comando" é sobre as pessoas que lutaram contra a revolução russa. O longa é baseado na vida do general Lodijensly que após escapar da Rússia revolucionária foi para Hollywood trabalhar como figurante. 

Sinopse (pode conter spoilers): No início do filme estamos em Hollywood, onde um diretor russo (William Powell) está selecionando pessoas para o próximo projeto que fará, que tem como tema a Revolução Soviética. Durante as provas de roupas, conhecemos um homem que enfeita o traje com medalhas autênticas. E, quando perguntado, revela que as recebeu do Czar em pessoa. Também, é perguntado por outro ator, o porquê de não parar de balançar a cabeça, e o homem revela ter sido o resultado de um choque. Aqui,  temos um salto temporal, quando o homem lembra os acontecimentos que o levaram a estar ali.

O homem (Jannings) é o Grão Duque Sergius Alexander, no comando de uma das tropas do governo Romanoff. Durane o longa o Grão Duque conhece dois atores revolucionários Natalie Dabrova (Evelyn Brent) e Lev Andreyev (William Powell). Enquanto o ator é atirado na prisão, a mulher se torna amante do Duque. Ela tenta matá-lo, mas no momento hesita e percebe que o Grão Duque é um homem decente que apesar de ideias contrárias, ama a Rússia tanto quanto ela.

Quando chega a revolução, Natalie sacrifica a própria vida para que o Duque possa escapar. A morte dessa leva-o ao choque nervoso já citado. Quando a história termina, estamos novamente em Hollywood (dez anos depois da revolução) perto de uma cena prestes a ser filmada: a batalha final da Revolução Russa.


Observações: A ideia original (de autor controverso) surgiu da quantidade de pessoas que na época iam para Hollywood trabalhar como extras. Pessoas que outrora eram alguém.  Histórias ambientadas na Rússia não eram raras  em Hollywood. A realeza caída, a revolução, as artes, a música, a dança, o frio e a distância chamava a atenção do outro lado do globo, para tanto posso citar "The Scarlat Lady", de Alan Crosland, "The Red Dance", de Raoul Walsh e "Mockery" de Benjamin Christensen.

A crítica sobre a indústria cinematográfica está bastante presente nas cenas iniciais, quando o Grão Duque vai buscar os acessórios para sua roupa e é empurrado junto com uma horda de outras pessoas fazendo a mesma atividade. Também o fato de cada peça do costume se adquirir em uma janela de serviço diferente, lembra bastante a linha de inspeção feita nos soldados em tempos de guerra, como diz o próprio inter-título "A linha de pão de Hollywood".

Além da crítica a Hollywood, o filme também faz uma análise no sentido: todo homem do outro lado numa revolução é um homem pequeno? Ou todos são grandes homens que estão em lados diferentes? O personagem de William Powell, uma vez torturado pelo Grão Duque, agora tem em suas mãos o poder  de fazer o que bem entender com o outrora algoz. Mas, agora, ele percebe: mesmo após a Revolução, o homem ainda não perdeu suas convicções e permanece fiel ao que acredita.

Na cena clímax  no estúdio, o diretor permite ao Grão Duque, numa cena comovente, interpretando a si mesmo, liderar a defensa que nunca teve chance. Ao fim Emil Jannings cai ao chão quite com seu país e destino, e pronto para receber seu Oscar de Melhor Atuação.

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...